Em um movimento significativo que reflete a crescente preocupação do Congresso com a política externa dos Estados Unidos, a Câmara dos Representantes aprovou uma resolução que visa restringir os poderes militares do presidente Donald Trump em relação ao Irã. A medida, que busca interromper qualquer ação militar não autorizada contra a República Islâmica, surge em um momento de elevadas tensões no Oriente Médio e reacende o debate sobre o equilíbrio de poder entre os Poderes Executivo e Legislativo na condução da guerra.
A votação na Câmara, que ocorreu em 3 de junho de 2026, resultou em 215 votos a favor e 208 contra, com um notável apoio bipartidário, incluindo quatro republicanos que se juntaram aos democratas para aprovar a resolução. Este resultado sublinha uma insatisfação transversal no Capitólio em relação à forma como a administração Trump tem gerido as hostilidades com o Irã, especialmente após o início de um conflito em 28 de fevereiro, que, obrigaria Trump a solicitar autorização do Congresso para seguir com ataques.
A resolução da Câmara baseia-se na Lei de Poderes de Guerra (War Powers Resolution) de 1973, uma legislação promulgada após a Guerra do Vietnã com o objetivo de reafirmar a autoridade do Congresso sobre a declaração de guerra. Esta lei exige que o presidente notifique o Congresso dentro de 48 horas após o envio de forças armadas para ação militar e proíbe o uso de forças armadas em hostilidades por mais de 60 dias sem autorização explícita do Congresso.
O governo Trump, no entanto, tem argumentado que o cessar-fogo declarado em 1º de maio de 2026, que marcou o fim do prazo de 60 dias previsto na Lei de Poderes de Guerra, eliminaria a necessidade de aprovação do Congresso, uma vez que não haveria mais combates ativos. Essa interpretação tem sido contestada por muitos legisladores, que veem a resolução como uma forma de reafirmar o papel constitucional do Congresso na decisão de engajar o país em conflitos armados.
Embora a resolução tenha obtido sucesso na Câmara, seu caminho no Senado é mais complexo. Uma resolução semelhante já havia passado por uma etapa-chave no Senado no mês passado, e sua aprovação na câmara alta poderia ocorrer em breve. No entanto, o Senado já havia barrado tentativas anteriores de limitar os poderes de Trump, com uma votação de 53 a 47 contra uma resolução similar em uma ocasião anterior.
Mesmo que a resolução seja aprovada por ambas as casas do Congresso, ela enfrenta um provável veto presidencial. A administração Trump tem demonstrado consistentemente sua oposição a qualquer medida que restrinja sua capacidade de agir rapidamente em questões de segurança nacional. A resolução é principalmente simbólica devido ao direito de veto do presidente americano.
O senador democrata Tim Kaine, autor de uma resolução similar no Senado, argumentou que o presidente estava descartando propostas de paz e diplomáticas sem compartilhá-las com o Congresso, o que justificaria a necessidade de uma maior supervisão legislativa. A aprovação da medida no Senado, que ocorreu em 19 de maio de 2026, com 50 votos a favor e 47 contra, contou com o apoio de quatro republicanos, incluindo Rand Paul, Susan Collins, Lisa Murkowski e Bill Cassidy, que votaram junto com quase todos os democratas [3]. O senador Cassidy, em particular, expressou preocupação com a falta de clareza da Casa Branca e do Pentágono sobre a operação “Fúria Épica” no Irã, afirmando que, até que o governo forneça esclarecimentos, nenhuma autorização ou prorrogação por parte do Congresso se justifica.
A aprovação desta resolução pela Câmara dos EUA, mesmo que simbólica, envia uma mensagem clara à administração Trump: o Congresso busca reafirmar seu papel constitucional na decisão de guerra e paz. A tensão entre os poderes Executivo e Legislativo sobre a autoridade de guerra não é nova na história americana, mas ganha contornos mais agudos em um cenário de polarização política e de uma política externa muitas vezes imprevisível.
Para o Irã, a resolução pode ser vista como um sinal de divisão interna nos EUA, o que poderia influenciar suas próprias estratégias. No entanto, a capacidade do presidente de vetar a medida significa que, na prática, a resolução pode não alterar imediatamente o curso das ações militares. A questão central permanece: quem tem a palavra final sobre o engajamento militar dos EUA no exterior?
A Lei de Poderes de Guerra foi criada para evitar que presidentes se engajassem em conflitos prolongados sem o consentimento do povo, representado pelo Congresso. A insistência da administração Trump em operar com autonomia em questões militares tem sido uma fonte constante de atrito. A resolução da Câmara é um lembrete de que, apesar do poder do Executivo, o Legislativo possui mecanismos para tentar conter o que considera ser um excesso de autoridade.
O futuro da política externa dos EUA em relação ao Irã, e a forma como o Congresso e a Presidência irão coexistir na definição dessa política, permanece incerto. A resolução da Câmara é um capítulo importante nessa saga, mas não o último. A batalha pelo controle da política de guerra dos EUA está longe de terminar, e os próximos passos do Senado e a eventual resposta do presidente Trump serão cruciais para determinar o desfecho dessa disputa constitucional.